domingo, 16 de novembro de 2014

Caribe contra a mudança climática a partir das bases sociais.
por Desmond Brown, da IPS
Gunthorpes, Antiga, 13/11/2014 – Preocupados com a segurança alimentar em Antiga e Barbuda, dois grupos comunitários desenvolvem uma iniciativa para mobilizar as pessoas em atividades de mitigação e adaptação à mudança climática, cujas consequências afetaram a produção agrícola local. “Quero que pelo menos dez mil pessoas se unam em Antiga e Barbuda nesse processo para tentar mitigar os efeitos da mudança climática”, disse à IPS uma das promotoras do evento, Evelyn Weeks.

“Escolho a agricultura porque é um dos setores mais afetados pelo fenômeno e um dos que mais contribui para a mudança climática”, explicou Weeks, que está à frente da Sociedade de Hidroponia, Aquicultura e Agroecologia, com sede neste país. “Planejo mobilizar pelo menos dez mil famílias em ações climáticas, como classificação de resíduos, elaboração de adubo e agricultura ecológica diversificada”, acrescentou.

Outro objetivo do projeto é “ajudar a proteger nossa biodiversidade, nossos ecossistemas e nossa segurança alimentar” usando as funções do ecossistema na horticultura, pois com isso os agricultores não terão que retroceder às monoculturas e ao uso de pesticidas e fertilizantes químicos, afirmou. A segurança alimentar gera preocupação não só nesse país, mas em todos os pequenos Estados insulares em desenvolvimento (Peid), porque a variabilidade climática afeta a agricultura.

Os especialistas preveem eventos climáticos mais extremos, como inundações e secas, bem como tempestades mais intensas no longo prazo no Oceano Atlântico. Weeks destacou que os projetos propostos pelos pequenos produtores em áreas vulneráveis contarão com ajuda econômica do Programa de Pequenas Doações (PPD), do Fundo para o Meio Ambiente Mundial (GEF).

“Nossa segurança alimentar é uma das coisas mais valorizadas, da qual devemos cuidar, e uma agricultura ecológica é o que ajudará a nos proteger”, afirmou Weeks. “Apelo às igrejas, aos grupos comunitários e de agricultores, a organizações não governamentais e a sociedades de amigos, escolas, etc., para que mobilizem seus membros e possamos reunir dez mil pessoas ou mais para mitigar a mudança climática e nos adaptar a ela”, detalhou.

Weeks também explicou que a classificação do lixo compreende o redirecionamento dos alimentos para que não cheguem ao lixão de Cooks, em um esforço nacional para elaborar adubo orgânico. “Se restos de comida forem jogados no lixo, onde terminarão? Vão parar nos lixões, que liberarão mais metano na atmosfera”, afirmou. O metano e o dióxido de carbono liberados na atmosfera são produto da decomposição de matéria orgânica em condições anaeróbicas (sem oxigênio).

Grandes quantidades de material orgânico, como restos de alimentos, e condições úmidas aumentam a produção de gás, em especial de metano, nos lixões. Como o metano tem potencial de aquecimento atmosférico 72 vezes maior do que o dióxido de carbono, a elaboração de adubo é uma importante atividade de mitigação. O adubo também serve para reconstruir solos degradados e, por conseguinte, ajuda a agricultura.

Pamela Thomas, diretora da Rede de Agricultores do Caribe (CaFAN), disse que sua organização recebeu aprovação para projetos de agricultura inteligente, com fundos do GEF. “Procuramos fazer uma agricultura inteligente. Isto é, preservar a atividade e proteger as plantas dos raios de sol”, explicou a também embaixadora da sociedade civil para agricultura junto à Organização das Nações Unidas (ONU). “Também coletaremos água e utilizaremos bombas movidas a energia solar para extraí-la e usá-la na irrigação”, acrescentou.

A CaFAN representa agricultores dos 15 Estados da Comunidade do Caribe (Caricom). Fundada por organizações agrícolas da região em 2002, negocia em nome de seus membros e desenvolve programas e projetos para melhorar seu sustento, além de colaborar com todos os atores do setor a favor dos trabalhadores agrícolas. “Se uma nação não pode alimentar a si mesma, o que será de nós?”, perguntou Thomas, acrescentando que deseja que mais agricultores abandonem os fertilizantes sintéticos e os pesticidas e se voltem para a agricultura orgânica.

Antiga e Barbuda foi o país do Caribe que mais recursos destinou à importação de alimentos por habitante, com cerca de US$ 1.170, seguida de Barbados, com US$ 1.126, Bahamas, com US$ 1.106, e Santa Lúcia, com USS 969. Além do gasto, depender das importações aumenta a vulnerabilidade, pois os furacões podem interromper o fornecimento de alimentos. Por isso a agricultura é um setor importante para o financiamento do PPD.

O diretor-executivo do GEF, Naoko Ishii, que se reuniu com a delegação caribenha na Conferência das Nações Unidas sobre os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento, realizada em Samoa no mês de setembro, elogiou os grupos comunitários dessa região. “Fiquei bastante impressionado com sua determinação em lutar contra a mudança climática e contra outros desafios”, afirmou à IPS. “Também me entusiasmou muito que tenham adotado um enfoque mais integrado do que em outras partes do mundo”, acrescentou.

A circunscrição caribenha do GDF é integrada por Antiga e Barbuda, Bahamas, Barbados, Belize, Cuba, Dominica, Granada, Guiana, Haiti, Jamaica, República Dominicana, Santa Lúcia, São Cristóvão e Neves, São Vicente e Granadinas, Suriname e Trinidad e Tobago.

Ishii se mostrou “bastante entusiasmado” com a participação de oito países na iniciativa Desafio do Caribe, um projeto de grande escala promovido pela Nature Conservancy, que investiu US$ 20 milhões em troca do compromisso dos países da região de apoiarem e gerirem as existentes e novas áreas protegidas. Os países membros devem proteger 20% de seus habitats marinhos e costeiros até 2020.

Bahamas, Jamaica, República Dominicana, São Vicente e Granadinas, Santa Lúcia, Granada, Antiga e Barbuda, e São Cristóvão e Neves já fazem parte do projeto. Ishii também disse que alguns dos países que participam do Desafio do Caribe já haviam recebido fundos do GEF e que há quatro projetos do GEF que apoiam a iniciativa.

São projetos com fundos duradouros para a gestão de ecossistemas marinhos em países da Organização de Estados do Caribe Oriental, construção de uma rede nacional sustentável de áreas marinhas protegida para as Bahamas, reavaliação do sistema nacional de áreas marinhas protegidas para alcançar a sustentabilidade econômica na República Dominicana, e fortalecimento da sustentabilidade operacional e econômica do sistema nacional de áreas protegidas na Jamaica.


Fonte: ENVOLVERDE

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