terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Sob ameaça de seca do Cantareira, especialistas defendem medidas de curto prazo.
Sistema Cantareira pode secar em quatro meses, caso as chuvas continuem abaixo da média. Foto: Divulgação/Sabesp.

A possibilidade de o Cantareira, maior reservatório de água da região metropolitana de São Paulo, secar no início de junho, levanta questionamentos sobre o que ainda pode ser feito pelo Poder Público em um prazo tão curto. Especialistas entrevistados pela Agência Brasil estão pessimistas quanto a soluções imediatas para a crise e reforçam a necessidade de ampliar a economia de água. 

A maior parte das medidas apontadas, algumas já adotadas pelo governo estadual, dependem de investimentos e levam tempo para ficar prontas. A projeção de esgotamento, feita pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), aponta que esse cenário é possível caso as chuvas continuem 50% abaixo da média e a captação se mantenha nos níveis atuais.

“Sinceramente, não há o que fazer para substituir de imediato o Cantareira. É um sistema muito grande que tem participação significativa no fornecimento de água para São Paulo”, avaliou o geólogo Pedro Luiz Côrtes, professor da área ambiental da Universidade de São Paulo (USP) e do Mestrado em Gestão Ambiental da Universidade Nove de Julho. De acordo com ele, antes da crise hídrica, o Cantareira era responsável por fornecer 33 metros cúbicos por segundo (m3/s) dos 71 m3/s consumidos na região metropolitana de São Paulo. Atualmente, a vazão está em 17 m3/s. Apesar da redução, essa quantidade ainda é maior do que a que tem entrado no manancial.

Para o professor, a crise hídrica, que já provoca falta d’água em diferentes regiões da capital, está só no começo. “Se deixarmos de contar com a água do Cantareira e do Alto Tietê [segundo maior reservatório, que também registra níveis críticos], vamos perder mais de 50% da água que era utilizada para abastecimento da região metropolitana de São Paulo”, estimou. Ele aponta que isso trará consequências importantes para a vida da população. “Não só na qualidade de vida, mas na geração de empregos, na atividade econômica do comércio. Isso poderia ter sido evitado com um planejamento mais adequado”, avaliou.

Em relação às alternativas para o abastecimento, Côrtes apontou a retirada de água subterrânea. “A Sabesp [Companhia Estadual de Saneamento Básico] já vem buscando essa opção, os chamados poços artesianos. Mas não é possível substituir um manancial usando somente essa água”, apontou. 

A companhia não informou quanto capta com este recurso atualmente. A represa Billings, que tem tamanho similar ao Cantareira e está com mais de 50% da capacidade, também tem sido apontada como opção. “Mas tornar a Billings uma alternativa real demanda investimento muito significativo em captação, estação de tratamento, interligação à rede. Isso leva alguns anos”, declarou.

O uso da Billings também é defendido por entidades que formam a articulação Aliança pelas Águas. Marussia Whately, uma das coordenadoras da organização, alerta para a necessidade de rever a utilização desta represa. Ela acredita que, além de dar mais segurança hídrica ao estado, a iniciativa iria ajudar a construir um modelo mais sustentável de abastecimento. “Avançar no uso da Billings como um manancial de abastecimento seria uma solução mais sustentável de cuidado com a água. Vamos recuperar uma represa que já existe, usar uma fonte de água ao lado da cidade e não gastar bilhões para construir novas represas em locais distantes.”

Como ações de curto prazo, o Aliança pelas Águas, grupo criado no ano passado para buscar soluções para a crise hídrica, propõe medidas como campanhas de esclarecimento, envolvimento da sociedade e das prefeituras na gestão da crise, proibição e penalização de usos abusivos da água, manutenção dos incentivos na conta para quem economiza, redução de perdas no sistema de distribuição e criação de programas e ações para recuperação das áreas degradadas dos mananciais.

Outra medida apontada pelo professor da USP é a ampliação da captação de outros sistemas, como o Guarapiranga. Mas há um limite nessa interligação. “É preciso construir a infraestrutura para fazer captação e tratamento dessa água, porque estamos buscando alternativas para um sistema que é responsável por grande parte da região metropolitana”, explicou. Ele destaca, no entanto, que para aumentar a retirada de um manancial é necessário fazer estudos ambientais. “Até que ponto o Guarapiranga poderia suportar, porque a recuperação do Cantareira pode demorar muitos anos.”

O professor de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Escola Politécnica da USP, José Carlos Mierzwa, não vê muitas possibilidades para amenizar a crise que não seja a diminuição do consumo. Entre as alternativas para que se amplie a economia de água, ele propõe a substituição dos equipamentos hidráulicos por versões mais eficientes. “Isso possibilitaria [uma redução] em curto prazo, se houvesse campanha de incentivo por parte do governo, por meio de redução de imposto”, propôs. Ele cita, como exemplo, os vasos sanitários que possuem dois acionamentos de descarga, com menor ou maior vazão. Mierzwa estima que a economia é de aproximadamente 30%.

Sobre o aproveitamento de água da chuva, ele alerta que só é indicado usá-la em áreas em que não há risco de contaminação. “Descarga de bacia sanitária, lavagem de piso”, exemplificou. A água de reúso, com tratamento de água do sistema de esgoto, está sendo feita pelo governo estadual como alternativa para o abastecimento. “A questão que deveria ser priorizada, além de eventuais obras para trazer mais água, é investir seriamente em tratamento de esgoto”, defendeu. Segundo o professor, a capacidade de tratamento das estações hoje é de aproximadamente 30%. “Teria que investir em novas tecnologias para ampliar a capacidade das estações, produzir uma água melhor e recuperar a qualidade dos rios”, propôs.


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