terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Projeto #eucompenso busca incentivar a neutralização de CO2, através de créditos de carbono.
A crescente acumulação de CO2 na atmosfera e sua associação com o aquecimento global e as mudanças climáticas já é uma preocupação em escala global.

Os relatórios do IPCC, a cada edição, consolidam o conhecimento científico relativo às mudanças climáticas e reafirmam a preocupação crescente. É importante destacar que o IPCC não ‘produz’ ciência. 

Seus mais de 1500 pesquisadores, em vários grupos de trabalho e análise, consolidam e sistematizam dados de pesquisas / estudos. 

Cada relatório do IPCC é resultado da sistematização de centenas de estudos e pesquisas. Assim, cada relatório também revisa o relatório anterior e seus fundamentos, confirmando ou rejeitando conclusões.

Já se discute abertamente como e porque descarbonizar a economia e da necessidade de mudar o modelo de desenvolvimento baseado em plena produção e máximo consumo.

Vivemos em um planeta finito e com recursos naturais igualmente finitos. No entanto, o nosso modelo econômico é baseado em produção e consumo infinitos. É evidente que este modelo não funciona por muito tempo. Já vemos as crescentes crises no modelo.

É claro que o que e como fazer para alterar o modelo ainda são questões em aberto, mas, enquanto isto, sob a lógica de redução de danos, já surgem ações que visam reduzir ou, pelo menos compensar, a emissão de CO2.

Projetos de neutralização e sequestro de carbono, investimentos em energias de baixa emissão, biocombustíveis, agricultura de baixo carbono, ecoeficiência, e outras, são ações que caminham neste sentido.

É obvio que, por si só, elas não alteram a crise do modelo, mas, enquanto não encontramos outro caminho, elas são essenciais para reduzir os danos e o agravamento do aquecimento global e das mudanças climáticas.

E as empresas já perceberam isto. Além de buscar processos ecoeficientes, que aumentam a eficiência e reduzem custos, várias estão desenvolvendo ações específicas de neutralização de carbono. 

Um exemplo é o Programa Reduza e Compense CO2, de iniciativa do Banco Santander, que tenta, mediante informações, instruções e métodos, ajudar as pessoas compreender e agir individualmente.

O Programa Reduza e Compense CO2, em seus objetivos, promove uma economia verde e ajuda a conhecer e reduzir o impacto ambiental. Com ele, as pessoas recebem dicas de redução para o seu dia a dia e calculam suas emissões anuais, além da possibilidade de compensar comprando créditos de carbono de projetos que reduzem as emissões e geram outros benefícios sociais e ambientais.

É possível calcular quanto carbono é preciso compensar através da  ferramenta de cálculo , preenchendo informações sobre uso de carro e/ou transporte público, viagens de avião, descarte de resíduos e gastos com combustíveis e eletricidade.

A ferramenta calcula suas emissões anuais de carbono e permite a compra de créditos de carbono, sendo que o pagamento é feito através do PagSeguro. Ou seja não é somente para clientes do banco.

O objetivo é facilitar e incentivar a redução e a compensação de emissões, estimulando a participação de todos na minimização dos impactos das mudanças climáticas. 

Através dos créditos de carbono busca viabilizar projetos de pequenas e médias empresas que comprovadamente geram benefícios sociais e ambientais. 

Considerando que a demanda por créditos de carbono ainda é insipiente no País, o projeto também busca fomentar a criação de um mercado de ativos ambientais no Brasil.

A metodologia utilizada pelo Santander para seleção dos projetos de compensação apoiados pelo Programa Reduza e Compense CO2 tem como base padrões internacionalmente reconhecidos, que avaliam a capacidade da iniciativa de trazer reduções efetivas de gases estufa e em suas demais contribuições para o desenvolvimento sustentável.

Assim, ao comprar crédito de carbono desses projetos, você está adquirindo um crédito com qualidade e também promovendo o desenvolvimento das comunidades e do ambiente onde eles estão localizados. Além, é claro, de estimular o mercado de carbono no nosso país.

Em 2014, o projeto apoiou o Projeto Florestal Santa Maria, Cerâmica Irmãos Fredi, Cerâmica Menegalli e Cerâmicas Guaraí, Itabira e Santa Izabel. 

A dinâmica de mobilização nas redes sociais usa a hashtag #eucompenso, inclusive porque, por qualquer meio que seja, é importante e necessário reduzir e compensar as nossas emissões.

Toda vez que alguém postar a hashtag #eucompenso, independentemente do conteúdo do post, o Santander vai compensar as emissões de carbono dos tweets, dos posts no Facebook e Instagram até atingir 100 bilhões de menções.


Saiba mais acessando os vídeos explicativos:



Fonte: EcoDebate
Programa Água Brasil lança estudo sobre Pegada Hídrica.
por Redação do WWF Brasil
Publicação traz os resultados do consumo de água das atividades econômicas mais relevantes nas regiões das sete bacias hidrográficas onde o Programa atua com projetos de conservação. Foto: © @WWF.

O Programa Água Brasil lança nesta quinta-feira, dia 18, a publicação “Pegada Hídrica das Bacias Hidrográficas”. O estudo traz os resultados do uso dos recursos hídricos pelas atividades econômicas mais relevantes nas sete bacias hidrográficas onde o Programa atua, que são: rio Lençóis (SP), córrego Cancã e ribeirão Moinho (SP), rio Longá (PI), rio Peruaçu (MG), córrego Guariroba (MS), ribeirão Pipiripau (DF) e igarapé Santa Rosa (AC).

O cálculo da Pegada Hídrica é um indicador que expressa o consumo de água envolvido na produção dos bens e serviços que consumimos. O método permite que as empresas, os órgãos públicos, assim como a população em geral, entendam o quanto de água é necessário para a fabricação de produtos ao longo de toda a cadeia produtiva. Desta forma, os segmentos da sociedade podem quantificar a sua contribuição para os conflitos de uso da água e a degradação ambiental nas bacias hidrográficas em todo o mundo.

A publicação, resultado de um estudo nacional, busca contribuir para o entendimento da Pegada Hídrica dessas atividades econômicas e apontar caminhos para o uso mais responsável da água. 

Espera-se que os diversos atores (indivíduos, comunidades, instituições de pesquisa, poder público, comitês, consórcios, agências de bacias) compreendam a importância da gestão mais eficiente, sustentável e participativa do uso da água nessas regiões para que esta iniciativa possa ser replicada em outras bacias.

Os resultados do estudo servirão também para apoiar a população e os poderes público e privado nas localidades a repensar o uso deste recurso em suas atividades e no seu planejamento futuro – um cálculo que se faz urgente e necessário frente a maior crise hídrica da história do Estado de São Paulo. “Além disso, poderemos reconhecer os indicativos de insustentabilidade do consumo da água nas bacias para identificação dos pontos críticos e sinalização das medidas mitigadoras, para, com isso, reduzirmos os impactos negativos e aumentarmos a resiliência do sistema hídrico”, explica Artur Paiva, coordenador do estudo e analista de Conservação do WWF-Brasil.

O Programa Água Brasil é uma iniciativa do Banco do Brasil com a organização ambientalista WWF-Brasil, a Agência Nacional de Águas e Fundação Banco do Brasil pela conservação dos recursos hídricos.

O download da publicação pode ser feito no site oficial.


Produção de biocombustíveis prejudica culturas alimentares no Mato Grosso.
Publicação elaborada pela Action Aid e pela FASE questiona a sustentabilidade ambiental e social desse tipo de energia.
A publicação “Biocombustíveis: energia que não mata a fome”, produzida pela ActionAid e pelo programa da FASE em Mato Grosso, aborda a produção de biocombustíveis a partir da soja e da cana-de-açúcar, cultivadas em monoculturas do agronegócio. Com foco no Mato Grosso, a publicação demonstra como estas produções afetam o espaço ecológico e social que as cerca. O estado é o principal produtor de grãos, detentor de um quarto da área total plantada no país. 

Também é o oitavo maior produtor de cana de açúcar, com 80% da produção localizada nos municípios da Bacia do Alto Paraguai.

A pesquisa observa que, enquanto a soja, o milho e a cana-de-açúcar, matérias-primas para os biocombustíveis, crescem no Mato Grosso, a produção de alimentos, como o arroz, feijão e a mandioca, caem. “A produção diversificada de outros alimentos, como frutas, legumes e verduras, também é extremamente reduzida em relação às necessidades de consumo da população do estado”, destaca um trecho do estudo, assinado por Sergio Schlesinger.

Ainda que o foco do estudo seja o Mato Grosso, com trabalhos de campo em Mirassol D’Oeste e região, o relatório contextualiza a realidade do setor no Brasil, que desponta como o segundo maior e o maior produtor e exportador de soja e cana-de-açúcar, respectivamente. E que essas produções vêm crescendo, sobretudo da soja. Na safra 2012/13, a soja chegou a ocupar mais de 52% da área total plantada com grãos do país. A soja também representa, segundo a Agência Nacional de Petróleo (ANP), 73,1% do volume de matérias-primas utilizadas na produção brasileira de biodiesel.

Impactos à agricultura familiar
Plantação de cana-de-açúcar. (Foto Sergio Schlesinger).

De acordo com o estudo, é frequente a contaminação de lavouras de alimentos através do lançamento de agrotóxicos por aviões. A prática também contamina rios, reduzindo as colônias de peixes, causando chuvas ácidas, dentre outros problemas. “Esse ano, eu não sei se foi o veneno, o que aconteceu: o quiabo, a abóbora, a laranjeira não está dando nada. O vento traz o veneno que eles jogam de avião pra madurar a cana. Eu tenho vontade de plantar, mas desse jeito fica difícil. 

Feijão não pode plantar, porque o veneno prejudica, não dá”, conta Ailton Basílio da Costa morador do Assentamento Roseli Nunes, localizado em Mirassol D’Oeste.

O relatório indica a relação direta entre o aumento da produção das monoculturas de cana e soja e o declínio da produção de alimentos: quanto mais cresce o agronegócio na região, mais se enfraquece a agricultura familiar. Como exemplo, destaca que em Lucas do Rio Verde, outro município mato-grossense, 90% de todos os alimentos consumidos por seus habitantes vêm de centros de abastecimento distantes, como de São Paulo e Curitiba.

Sergio Schlesinger questiona o discurso de conciliação entre a convivência entre a agricultura familiar e o agronegócio. Para ele, é preciso tomar lado: “A realidade nos mostra um panorama que torna evidente a necessidade de fazer escolhas, estimulando algumas atividades, inibindo ou regulamentando outras”.
Desmatamento e pesticidas nas monoculturas ameaçam os rios. (Foto: Segio Schlesinger).

Além dos agrotóxicos, a pesquisa também cita a contaminação das águas pela vinhaça, utilizada como fertilizante na produção de cana, e constata que, para cada litro de etanol produzido, são gerados dez a 15 litros de vinhaça. Cita também a queima da palha de cana, que causa sérios problemas respiratórios, além de gerar alta concentração de ozônio na atmosfera.

Energias limpas?

A pesquisa questiona os biocombustíveis como energias limpas, já que os impactos sociais e ambientais da prática da monocultura com uso de agrotóxicos não costumam entrar nessa conta. Para Vilmon Alves Ferreira, da FASE em Mato Grosso, é urgente a revisão do modelo de produção de monocultivos para produção de biocombustíveis.

“Da forma como são produzidos, não podem ser chamadas de energias limpas, renováveis, verdes ou alternativas. Está claro que elas também destroem o meio ambiente e a produção de alimentos, com enormes prejuízos sociais. Nessa questão, acreditamos ser central o debate sobre como são produzidos, com quais objetivos e a que modelo de desenvolvimento os agrocombustíveis têm atendido”, destaca.

Em diálogo com a publicação “Biocombustíveis: energia que não mata a fome”, a ActionAid produziu uma animação sobre o tema. Segundo Maíra Martins, coordenadora da equipe de Políticas da organização no Brasil, o objetivo do trabalho é tentar comunicar, de forma criativa, as contradições dos biocombustíveis e os impactos sobre a produção de alimentos. “Dizem que eles são combustíveis limpos e uma alternativa, por emitirem menos CO2, mas, na verdade, seu processo de produção tem uma série de impactos”, reforça.

Fonte: Fase Nacional
Poucos avanços na primeira semana de negociações em Lima.
por Redação do WWF Brasil
Abertura da COP20 em Lima, Peru
© COP 20 – UNFCCC

Durante a primeira semana da 20ª edição da Conferência das Partes (COP20) das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, pouco se avançou nas discussões para a elaboração do Acordo Climático Global. O evento, que teve início no dia 1º de dezembro, em Lima, reúne os representantes dos mais de 190 governos que integram a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) para discutir o papel dos países na redução das emissões dos gases de efeito estufa.

De acordo com André Nahur, coordenador do Programa de Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil, “o começo desta conferência teve sinais políticos positivos, como as metas anunciadas pelos Estados Unidos, China e União Europeia, que podem ser o primeiro passo de que é possível chegar ao final de 2015 com alvos globais estabelecidos rumo a um futuro de baixo carbono. Apesar deste sinal, a discussão sobre o caminho das ações dos países antes de 2020 ainda possui extrema relevância, pois há uma lacuna de emissões que deve ser eliminada urgentemente”.

O Brasil foi destaque nesta semana por quase ganhar o prêmio “Fóssil do Dia” na última quarta-feira (03). A premiação é realizada diariamente pelas organizações não governamentais aos países com posicionamentos não favoráveis às negociações climáticas. O país foi o segundo colocado devido a uma declaração sobre Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL), pela qual ele negou que haja dupla contagem da redução de emissões. O MDL foi criado pelo Protocolo de Kyoto para ajudar financeiramente países em desenvolvimento a cumprir seus compromissos de redução de gases do efeito estufa (GEE), por meio da implementação de projetos sustentáveis, com os quais as emissões evitadas geram créditos.

Apesar disso, Nahur afirma que o Brasil tem avançado na proposta de uma nova metodologia para o próximo acordo climático global, que pretende esfriar os ânimos na discussão que ocorre desde a assinatura do Protocolo. Chamada de Diferenciação Concêntrica, a proposta brasileira foi apresentada na quinta-feira (04) e teve boa aceitação entre as delegações, servindo como um pontapé inicial para um processo mais focado para a negociação do texto. De acordo com o documento, os países seriam divididos em três níveis, com critérios diferentes de redução de emissões. A principal dúvida gira em torno dos indicadores para a escolha da categoria de cada país.

Com a chegada dos ministros para o Segmento de Alto Nível, que ocorrerá a partir de hoje (9), a expectativa é que o ritmo das discussões acelere. Até o final desta semana, deve-se chegar ao desenho inicial de um acordo climático global – a ser finalizado em 2015 e assinado na COP21, em Paris – que obrigue as nações a cortar as emissões de gases de efeito estufa a partir de 2020. Para Nahur, “é necessário que os países avancem nesta discussão aqui em Lima, para que tenhamos claros avanços na discussão de ações efetivas antes de 2020 e de financiamento de ações de mitigação e adaptação”.


Fonte: WWF Brasil
Por que 2014 pode ser o ano mais quente da história desde o início das medições?
O órgão meteorológico da ONU advertiu, na última quarta-feira, que o ano de 2014 caminha para ser o mais quente da história desde o início das medições. Nos dez primeiros meses do ano, a temperatura global média do ar foi 0,57ºC acima da média de longo prazo.

Se essa tendência for registrada também nos dois últimos meses do ano, 2014 superará 1998, 2005 e 2010 (por uma pequena margem) como o ano mais quente.

O ano foi também de extremos: seca extrema e falta d’água em partes do Brasil; fortes chuvas e inundações inesperadas em outras partes do mundo.

Mas o que pode estar por trás de um ano tão quente e quais as implicações disso?

Segundo a WMO (World Meteorological Organization), o cenário se deve sobretudo às temperaturas recordes registradas na superfície dos mares globais.

Em geral, anos excepcionalmente quentes costumam ser associados à influência temporária do fenômeno climático conhecido como El Niño – que ocorre quando temperaturas da superfície marítima acima da média no leste tropical do Pacífico se somam em um ciclo que se retroalimenta perpetuamente – a sistemas de pressão atmosférica. E isso pode afetar padrões climáticos.

O curioso, porém, é que as altas temperaturas de 2014 ocorreram mesmo na ausência de um El Niño no Oceano Pacífico. Durante o ano, as temperaturas da superfície dos mares globais subiram a níveis semelhantes ao que teriam com o fenômeno, sem que ele chegasse a se desenvolver plenamente.

Além disso, existem as tendências relacionadas à temperatura global: ainda que elas tenham se estabilizado parcialmente nos 15 anos anteriores a 2013 (depois de terem aumentado fortemente a partir dos anos 1970), muitos estudos veem uma relação entre essa “pausa” e a absorção de calor pelos oceanos.

As altas temperaturas das superfícies oceânicas no Pacífico e em outras partes das águas do mundo podem indicar que essa “pausa” está chegando ao fim, mas não há provas concretas para garantir isso. Os especialistas climáticos dizem ser necessário mais de um ano quente para perceber essa eventual tendência.

Anos quentes

Mas outra tendência já observada é a de que estamos entrando em uma era em que recordes de temperatura devem se tornar cada vez mais comuns.

No entanto, isso não necessariamente significa que cada ano será mais quente que o anterior – ainda que essas altas temperaturas estejam inseridas em um contexto de aquecimento global, mudanças climáticas e influência humana.

É possível que se passem alguns anos até que tenhamos um novo recorde de temperatura; e o aquecimento global pode apressar ou retardar esse efeito no curto prazo.

Sendo assim, o que faz um ano ser mais quente que seu antecessor? A resposta depende de vários fatores.

Grandes erupções vulcânicas, por exemplo, podem causar um declínio temporário nas temperaturas graças ao reflexo da luz do Sol resultante de partículas atmosféricas. Isso aconteceu, por exemplo, após a erupção do Monte Pinatubo, nas Filipinas, em 1991.

Flutuações no oceano também podem causar esses altos e baixos temporários.

Só que, ao mesmo tempo, é em regiões terrestres e no Ártico que as temperaturas médias mais aumentaram.

Isso sugere que, apesar da “pausa” mencionada anteriormente nos aumentos de temperatura nos últimos anos, o período se mostrou excepcionalmente quente.

O relatório da WMO sobre o estado do clima global é publicado anualmente para coincidar com as negociações

O secretário-geral da Organização Meteorológica Internacional (WMO, na sigla em inglês), Michel Jarraud, disse que os dados preliminares de 2014 são “consistentes com o que esperávamos de um clima em mutação”.


Fonte: BBC Brasil
Poluição sonora e alfabetização auditiva, artigo de Marden Campos.



Em junho passado, fui aos Estados Unidos para participar de um programa de intercâmbio de jovens pesquisadores do “Sul Global”, vindos de países que outrora foram chamados de “em desenvolvimento”, “subdesenvolvidos” ou de “terceiro mundo”. Me espantei quando, em um domingo de folga, ao dirigir-me a moderna biblioteca da universidade em que estávamos, deparei com um tipo de setorização da sala de estudos que nunca tinha visto: por decibéis! Lá, um espaço com poucos livros e muitos computadores, havia um vasto setor que, sobre mesas e cadeiras, via-se uma placa indicando o limite sonoro de 50 decibéis. Mais ao fundo, onde localizavam-se apenas mesas individuais, outra placa o limite de 25 decibéis. No fundo da biblioteca, com apenas mesas individuais, separadas por pequenas divisórias e entremeadas por confortáveis cadeiras para leitura, havia uma taxatória placa em que se proclamava por silêncio absoluto através do texto “00 decibéis”. Minha primeira reação foi de admiração pelo grau de civilidade atingido pela elite de estudantes daquela universidade, notoriamente uma das maiores e mais caras daquele País. Contudo, logo em seguida, quando retornava para o alojamento, passei a pensar se as pessoas dali sabiam, ao menos aproximadamente, qual o volume sonoro e que tipo de barulho equivale a 50 ou a 25 decibéis, já que 00 decibéis, obviamente, qualquer pessoa saberia que significa barulho nenhum! (mais tarde vim a descobrir que 50 decibéis equivalem a uma conversa normal e 25 decibéis a fala sussurrada).

No evento de que participava, sobre os desafios para o desenvolvimento ao sul do equador, um dos principais temas discutidos era a poluição urbana. A discussão que se deu em uma manhã fria que anunciava o final da primavera tocou diretamente no tema que me inquietava após a visita à biblioteca. Viver em cidades talvez seja a principal característicos de nossa época. Embora essa forma de organização do espaço e da moradia seja uma invenção que data de milênios, pela primeira vez na história da humanidade mais da metade da população mundial mora nas cidades. 

Desse modo, grande parte dos problemas a serem enfrentados pela humanidade nas próximas décadas, como por exemplo as questões ambientais, serão problemas urbanos. Apesar das vantagens da vida na cidade, como o aumento da produtividade, a diversificação das atividades culturais e de lazer, a redefinição dos papéis familiares e maior equilíbrio nas relações de gênero, só para ficar em alguns exemplos, também somos obrigados a conviver com os problemas típicos desses espaços. O aumento da violência, a piora da qualidade do ar, a dificuldade de locomoção e de habitação, juntam-se a um típico problema urbano que, apesar de trazer danos à saúde individual e coletiva ainda tem sido pouco discutido e dimensionado: a poluição sonora.

À epoca do referido evento, já estava claro para mim – então morador do bairro de Copacabana no Rio de Janeiro – que o nível de decibéis suportável para que as pessoas pudessem se recolher à seus lares para atividades domésticas e descanso já havia sido ultrapassado enormemente. Viajando pelo país e pelo mundo percebi que a poluição sonora não era um privilégio do meu bairro e nem da minha cidade. Nas cidades, convivemos diariamente com um nível de ruído elevado, oriundo dos motores a diesel, buzinas, sirenes, geradores, fábricas, alto-falantes, furadeiras, martelos e – tentando se fazer ouvir em meio à balburdia – pessoas gritando. Contudo, qual é o nível de decibéis aceitável para descansarmos e recuperarmos nossa energia para o dia seguinte, no sentido estrito do que seria uma saudável e plena reprodução social? Apesar da medicina e da engenharia já terem estipulado níveis aceitáveis e perigosos de exposição ao ruído, a questão vai mais além: as pessoas comuns sabem qual o nível de ruído elas estão emitindo ao realizarem suas atividades? Quão acima de um limite sonoro aceitável elas viveriam? Afinal, todos sabem que há uma medida de volume de fácil apreensão e que hoje em dia estamos mais do que nunca aptos, com nossos smartphones, a monitorar esse volume?

Embora a solução para os problemas da poluição sonora não seja simples e trivial e passe por questões complexas como eficiência na produção dos motores a diesel, material utilizado na construção de casas e prédios, liberdade de expressão e zoneamento urbano, acredito que uma alfabetização auditiva possa ser o primeiro passo para a tomada de consciência individual e coletiva de que precisamos emitir menos ruídos se queremos viver um ambiente saudável, e que saúde realmente signifique algo mais do que ausência de doença. Assim como a noção de distância é facilitada por termos uma noção precisa do tamanho de 1 metro e a noção do tempo já foi totalmente internalizada de tanto que consultamos relógios (em geral, temos uma ideia bastante precisa do que são 1, 15 ou 30 minutos, mesmo sem precisar consultar o relógio). Quem sabe se fôssemos alfabetizados em termos de medidas de volume não nos sensibilizaríamos mais para o nível de ruído emitido em nossas cidades? Esse seria o primeiro passo para, quem sabe, passar a pensar em fazer a setorização das áreas urbanas por nível de ruído, e assim por diante, tentando construir cidades cujo ambiente seja cada vez mais saudável.

Marden Campos é doutor em Demografia pelo CEDEPLAR/UFMG e bacharel em Ciências Econômicas pela UFMG. Também é Especialista em Gestão e Manejo Ambiental pela Universidade Federal de Lavras. Atualmente é Analista Socioeconômico do IBGE e professor colaborador do Mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais e da Especialização em Análise Ambiental e Gestão do Território da Escola Nacional de Ciências Estatísticas. (mardencampos@gmail.com)


Fonte: EcoDebate

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Pnuma quer combater mudança climática através de energias renováveis.
por Edgard Júnior, da Rádio ONU
Produção de energia eólica. Foto: ONU/Eskinder Debebe

Coalizão “1 Gigaton” disse que vários países em desenvolvimento têm projetos nesse sentido mas resultados nunca foram medidos; reduções podem chegar a uma giga tonelada de emissões de dióxido de carbono por ano se dados forem computados; anúncio foi feito durante a COP 20, em Lima.

Uma coalizão coordenada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma, lançou um esforço mundial para reduzir toneladas de emissões de dióxido de carbono, CO2, e para economizar gastos de bilhões de dólares.

O anúncio foi feito esta quarta-feira durante a Conferência sobre o Clima, COP 20, que está sendo realizada em Lima, Peru.

Economia

Segundo o Pnuma, a economia e os cortes serão feitos a partir de medições da redução das emissões que já estão ocorrendo em todo o mundo.

A coalizão informou que vários países em desenvolvimento têm, atualmente, projetos e programas em andamento para promover o uso de energia renovável e eficiência energética.

O grupo, que tem o apoio do governo da Noruega, disse que a maioria dos países que tem programas de energia renováveis não medem ou relatam publicamente as reduções dos gases que causam o efeito estufa.

A coalizão acredita que se medidas, estas reduções podem chegar a uma giga tonelada por ano até 2020.

Mudança Climática

O secretário-geral do Pnuma, Achim Steiner, afirmou que “a eficiência energética e a energia verde podem reduzir a ameaça da mudança climática, economizar dinheiro e ajudar a meta da Iniciativa de Energia Sustentável para Todos.

Segundo ele, essa é uma forma de fornecer a todos os habitantes do planeta acesso a fontes de energia limpas e modernas.

Steiner citou estudo da Agência Internacional de Energia dizendo que a economia global pode economizar US$ 18 trilhões, mais de R$ 46 trilhões, até 2035 se o mundo adotar a eficiência energética como primeira opção.

A redução das emissões de carbono pode alcançar entre 2,5 e 6,8 giga toneladas de carbono por ano.

A coalizão “1 Gigaton” encoraja todos os países em desenvolvimento a aumentarem os esforços para promover o uso de energia verde como uma contribuição para manter o aumento da temperatura global abaixo de 2º C.

O grupo menciona que uma mudança global em relação ao uso de aparelhos e equipamentos eletrodomésticos que gastam menos energia pode reduzir o consumo de eletricidade em mais de 10%, quer dizer, US$ 350 bilhões de dólares anualmente. A redução das emissões de CO2 pode chegar a 1,2 bilhões de toneladas por ano.


Fonte: Rádio ONU
PNAD 2013: 52 milhões de brasileiros estão em situação de insegurança alimentar.
O número de domicílios em situação de insegurança alimentar no Brasil continua caindo, mas ainda existem cerca de 52 milhões de brasileiros sem acesso diário à comida de qualidade e na quantidade satisfatória. Segundo o suplemento de Segurança Alimentar da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2013, divulgado ontem (18) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos 65,3 milhões de domicílios registrados, 22,6% estavam em situação de insegurança alimentar. Esse percentual era 29,5% em 2009 e 34,8% em 2004, anos anteriores da pesquisa.

Dos 14,7 milhões de domicílios com algum tipo de insegurança (22,6%), em 9,6 milhões (14,8%) moravam 34,5 milhões de pessoas (17,1%) da população residente em domicílios particulares em situação de segurança alimentar leve. Nesses lares havia a preocupação quanto ao acesso aos alimentos no futuro. Os domicílios com moradores vivendo em situação de insegurança alimentar moderada representavam 4,6% do total. Ao todo 10,3 milhões de pessoas nessa situação ou 5,1% conviviam com limitação de acesso quantitativo aos alimentos. A prevalência de domicílios com pessoas em situação de insegurança alimentar grave era 3,2%. Em números absolutos, 7,2 milhões de pessoas ou 3,6% dos moradores de domicílios particulares reportaram alguma experiência de fome no período investigado. Em 2009, esse percentual era 5% e em 2004, 6,9%.

Saiba Mais

Para o IBGE, os domicílios com insegurança alimentar leve são aqueles em que foi detectada alguma preocupação com a quantidade e qualidade dos alimentos disponíveis. Naqueles com insegurança alimentar moderada, os moradores conviveram com a restrição de alimento em termos quantitativos. Já nos domicílios com insegurança alimentar grave, os membros da família passaram por privação de alimentos, cujo grau mais extremo é a fome.

O estudo mostra também que a prevalência dos três níveis de insegurança alimentar caíram entre 2009 e 2013. O número de famílias em situação de segurança alimentar aumentou cerca de oito pontos percentuais em quatro anos ao alcançar 77,4% dos domicílios em 2013. Aproximadamente 150 milhões de pessoas tinham acesso regular e permanente a alimentos de qualidade em quantidade suficiente, segundo o estudo.

De acordo com a pesquisa, a área rural concentrava o maior número de domicílios com indivíduos em situação de insegurança alimentar: 35,3% (13,9% moderada ou grave). Na área urbana, esse percentual era 20,5% (6,8% moderada ou grave). Em 2009, o índice foi 43,7% e 29,3%, respectivamente. Nos domicílios particulares urbanos em situação de insegurança alimentar moderada ou grave viviam 7,4% da população urbana, enquanto nos domicílios rurais moravam 15,8% da população.

Em relação às regiões do território nacional, o Norte e o Nordeste tinham o maior número de domicílios com pessoas em situação de insegurança alimentar (36,1% e 38,1%, respectivamente) no ano passado. Nas demais regiões esse percentual não chegou a 20%. O Sudeste apresentou o menor índice, 14,5%. Norte e Nordeste também concentravam os maiores percentuais de domicílios com pessoas em situação de insegurança alimentar grave (6,7% e 5,6%). No Sul e Sudeste, a prevalência ficou em 1,9% e 2,3%. Por outro lado, entre 2004 e 2013, o incremento mais expressivo do percentual de domicílios com pessoas comendo bem foi identificado no Nordeste (15,5 pontos percentual), com aumento de 46,4% para 61,9%.

O Espírito Santo foi o estado com o maior índice de segurança alimentar (89,65%), seguido de Santa Catarina (88,9%) e São Paulo (88,4%). As unidades da Federação com as menores prevalências foram: Maranhão (39,1%) e Piauí (39,1%), onde menos da metade dos domicílios particulares tinha alimentação assegurada, apesar do aumento de 3,6 e 3,3 pontos percentuais. No Nordeste, todos os estados apresentaram taxas inferiores à média nacional (77,4%). Na Região Norte, apenas Rondônia registrou prevalência de segurança alimentar acima da média nacional, 78,4%.


PF e Ibama prendem nove pessoas e lacram 22 madeireiras por fraude em Rondônia.
Foto de arquivo


Policiais federais e agentes do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) prenderam nove pessoas e lacraram 22 madeireiras em Rondônia. A ação faz parte da chamada Operação Mesclado, deflagrada hoje (10) para combater a extração ilegal de madeira do interior da Terra Indígena Mequéns, próxima à cidade de Pimenta Bueno, na região sul do estado.

De acordo com a PF, os envolvidos no esquema são acusados de fraudar planos de manejo e falsificar documentos para esconder a origem ilícita da madeira. A PF afirma que, além de madeireiros, consultores ambientais, transportadores e “laranjas”, o esquema contava com a “conivência” das lideranças indígenas locais. A estimativa é que o grupo tenha movimentado cerca de R$ 500 milhões.

As diligências ainda não foram encerradas. No total, a Justiça Federal expediu 66 mandados judiciais que estão sendo cumpridos em dez municípios da região. Dos dez mandados de prisão preventiva, apenas dois não haviam sido cumpridos até as 14h30 (horário de Brasília), porque os investigados não tinham sido localizados. Pelo mesmo motivo, três dos 17 mandados de condução coercitiva (quando o investigado é conduzido para prestar depoimento e liberado em seguida) também continuavam pendentes.

No mesmo período, o único mandado judicial de prisão temporária, além dos 23 de busca e apreensão e das 22 ordens de interrupção de atividades das empresas madeireiras já tinham ou estavam prestes a ser cumpridos. A Justiça Federal também decretou o sequestro de bens imóveis dos investigados até o limite conjunto de R$ 7,5 milhões.

Os alvos do mandado de prisão preventiva e de dois mandados de condução coercitiva ainda não cumpridos são contra índios da etnia Sakurabiat. Segundo a PF, durante as investigações foram encontrados indícios de que as lideranças da comunidade indígena autorizavam os madeireiros a ingressar na reserva indígena e retirar a madeira, recebendo por isso. A PF ainda apura se o dinheiro era usado para beneficiar toda a comunidade ou apenas as lideranças que negociavam com os madeireiros.

Entre os investigados já detidos está o madeireiro Josil Binow, apontado como um dos principais beneficiários do esquema e com quem a PF afirma ter encontrado cheques no valor total de R$ 1,2 milhão. Binow está sendo ouvido no posto da PF em Pimenta Bueno e, em seguida, será conduzido para o presídio da cidade com os outros suspeitos cujas prisões preventivas ou temporárias foram cumpridas. A Agência Brasil não conseguiu localizar seu advogado.

Binow já foi condenado em agosto de 2014 por obstruir ou dificultar a ação fiscalizadora do Poder Público; por receber madeira sem exigir a exibição de licença do vendedor, outorgada pela autoridade competente, e por falsidade ideológica (Artigo 299 do Código Penal). Ele e cinco corréus estavam em liberdade, após recurso contra a sentença do juiz Leonel Pereira da Rocha. O grupo foi denunciado pelo Ministério Público de Rondônia (MP-RO) no Processo 0004575-92.2010.822.0008, por apresentar aos órgãos fiscalizadores, em 2006, relatórios ambientais fraudulentos, nos quais alegavam terem saldo de madeira superior ao real.


Peru processa Greenpeace por invasão às Linhas de Nazca.
Foto: Philstar.com/AP/Rodrigo Abd


O presidente do Peru, Ollanta Humala, disse hoje (12) que o país está processando a organização não governamental (ONG) Greenpeace por invasão ao monumento arqueológico Linhas de Nazca. Ele exigiu um pedido de desculpas à ONG.

“Espero que haja um pedido de desculpa, à margem das ações que os ministérios da Cultura e da Justiça estão promovendo”, disse Humala na televisão pública do Peru.

Saiba Mais

Esta é a primeira reação do chefe de Estado do Peru, depois de alguns ativistas da Greenpeace terem feito, na última segunda-feira (8), nas Linhas de Nazca, uma manifestação de alerta sobre as alterações climáticas.

A ação ocorreu em área estritamente proibida, ao lado da figura de um beija-flor, onde colocaram letras gigantes de tecido amarelo com a frase Time for Change! The Future is Renewable (É Tempo de Mudar! O Futuro É Renovável!), segundo informações do Ministério da Cultura do Peru.

A declaração foi feita um dia depois de o vice-ministro peruano da Cultura, Luis Jaime Castillo, ter recusado o pedido de desculpa de um representante da Greenpeace. A organização ambientalista alega que não causou danos às Linhas de Nazca.

“Não aceitamos as desculpas. Eles não aceitam os danos causados”, disse o vice-ministro da Cultura, depois de ter recebido o porta-voz da Greenpeace.

Patrimônio mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura desde 1994, as Linhas de Nazca, com mais de 2 mil anos, são representações de figuras de diferentes complexidades, que vão desde simples linhas até imagens de animais e plantas, no Deserto de Nazca, no Peru.


Fonte: EcoDebate
PEC 215 não é votada por comissão especial da Câmara e, segundo regimento, deve ser arquivada.
por Oswaldo Braga de Souza, do ISA
Presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), discute com deputados destino da PEC 215. Foto: Zeca Ribeiro / Agência Câmara.

Fim de comissão é vitória histórica de defensores do meio ambiente, dos direitos de povos indígenas e tradicionais. Desfecho ocorre depois de duas semanas de batalhas regimentais entre parlamentares ruralistas e socioambientalistas.

O Congresso finalizou, tarde da noite de ontem (17/12), as votações do ano legislativo e da atual legislatura sem que a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215 tenha sido votada pela comissão especial que a analisava. Com isso, de acordo com o Regimento da Câmara, a comissão deve ser extinta e o projeto arquivado, numa vitória histórica para defensores do meio ambiente, povos indígenas e tradicionais.

Com apoio da bancada do agronegócio na Câmara, a PEC pretendia transferir do Executivo para o Legislativo a prerrogativa de formalizar Terras Indígenas, Unidades de Conservação e Territórios Quilombolas. Se aprovada, significaria, na prática, a paralisação definitiva dos processos de oficialização dessas áreas protegidas, entre outros retrocessos para os direitos socioambientais.

As últimas duas semanas foram particularmente tensas para os opositores da proposta, quando parlamentares ruralistas e socioambientalistas travaram uma batalha de manobras regimentais em torno de sua tramitação (leia mais). Desde terça (16/12), os acessos ao Congresso foram restringidos. Um grande aparato policial foi mobilizado sob a ordem do presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), para impedir a entrada de manifestantes. Indígenas que protestavam contra a PEC foram reprimidos e seis deles foram presos (saiba mais).

O vice-presidente da comissão especial, o ruralista Nílson Leitão (PSDB-MT), reconheceu a derrota em Plenário, apesar da bancada do agronegócio dominar o colegiado. “Não conseguimos terminar o ano sem debater minimamente a PEC. Fomos derrotados de forma covarde. O presidente da comissão, Afonso Florence [PT-BA], nos enrolou toda a manhã e veio aqui sorrateiramente e encerrou a reunião”, resignou-se o deputado.

Durante boa parte da manhã, conduzindo uma reunião conturbada da comissão, Florence rejeitou pacientemente, uma a uma, as várias questões de ordem apresentadas pelos poucos deputados contrários à PEC. O petista, no entanto, ganhou tempo e irritou os ruralistas. Pouco antes do meio dia, quando faltou luz no Congresso, ele suspendeu a sessão. Os deputados tiveram de ir ao plenário da Câmara para acompanhar as votações da ordem do dia.

A expectativa dos ruralistas era ler e votar o substitutivo do deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) assim que as votações no plenário terminassem e a reunião fosse retomada. Com o alongamento de votações complexas no plenário, Florence pediu a palavra e determinou o encerramento da reunião da comissão de lá mesmo, sob protestos de Nílson Leitão. Nos corredores da Câmara, a expectativa era de que os ruralistas tentariam uma nova manobra para realizar uma nova reunião da comissão. Eles continuaram pressionando Alves e Florence a voltar atrás e para tentar votar o relatório de PEC até tarde da noite, mas, já com o Congresso esvaziando-se, não tiveram sucesso.

Eles precisariam apreciar o substitutivo de Serraglio no máximo até amanhã. Em geral, os parlamentares deixam Brasília para voltar aos seus estados no máximo até quinta na hora do almoço. O recesso parlamentar está previsto para começar na próxima segunda (22/12).

Do lado de fora do Congresso, um grupo de mais de 50 índios passou o dia em protesto contra a PEC, cantando e dançando, impedido de entrar no prédio por um grande contingente de policiais. Não houve incidentes durante todo o dia.

“Essa foi realmente a vitória de 2014, num momento em que não víamos a possibilidade de vencermos, diante dos votos e das manobras ruralistas”, comemorou Sônia Guajajara, coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Ela ressaltou a importância da união de parlamentares aliados, organizações indígenas, indigenistas e ambientalistas na luta contra a PEC.

Arquivamento

“O artigo 105 do Regimento da Câmara determina que os projetos devem ser arquivados ao final da legislatura caso não sejam aprovados por todas as comissões pelas quais precisam tramitar”, explica Maurício Guetta, advogado do ISA.

Ele aponta, no entanto, que os ruralistas ainda podem tentar uma amanobra regimental objetivando o não arquivamento da PEC, ainda neste ano, ou o seu desarquivamento, no início da próxima legislatura. Guetta prevê que eles seguirão tentando aprovar propostas contrárias ao meio ambiente e aos direitos de povos indígenas e tradicionais.